Como o fogo a incidir sobre o gelo, derretendo tudo e fazendo escorrer, fazendo frágil a pedra consistente, transformando em água, impossível de agarrar nas mãos, nesse mesmo instante o sol incandescente nasce por detrás das montanhas e desperta-me do meu sonho hipnótico. Abro os meus olhos, acendo o último cigarro que está sobre a mesa e desfruto prazerosamente da solidão e da nova vida que agora viverei.
sábado, 14 de setembro de 2013
A viúva de Prius Octávius
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Non Paenitenda
Tudo será igual. O cristo de braços extensos na
outra margem velando por “Tago, de antiga estirpe e de grande beleza”. A
calçada monocromática que concebe encruzilhadas em breu, geometricamente perfeitas,
onde perfeitamente no centro se coloca a figura equestre relinchante petrificada,
montado pelo destemido D. José de bronze. O arco de marfim, a rua de ouro e a
rua de prata. As fontes e os deuses que inspiraram Bocage, de onde D. Pedro
(sim, D. Pedro, e não Maximiliano do México) também petrificado, fita com brio
os feitos a partir deste porto seguro do povo de Olisipo. Os carros a correrem pela Liberdade rodeando o imponente felino
ao lado do grande criador (ou melhor, recriador) de tudo que por ali abaixo se
vê. Tudo será igual.
Tudo será igual, menos a vida e a efemeridade que
agora ela detém. Menos as memórias vividas e o pesar pelas fatalidades outrora
abortadas. Menos as lágrimas vertidas pelo que passou (sem nenhuma gota de
arrependimento) e a certeza de que não há remorso pelos feitos, quer vitoriosos
ou esmorecedores. O que passou, passou. Não adianta girar a ampulheta, pois o
tempo não volta atrás. Tudo será igual, menos a vontade de crescer, desbravar,
evoluir e vencer, sem ilusões ou mundos paralelos, repletos de escuridão e
carcoma, onde os espelhos e os poucos raios de luz subterrâneos iludem, onde o
som do desespero, da carência e do desamor estão isolados e abafados pelo hino
hipnótico em voz de sereias que nos cantam “dancem, até o mundo acabar. Nós
vamos morrer jovens”. Ali, no subterrâneo ninguém os pode ouvir. Ali em baixo,
eles já estão soterrados, nem pensam no nascer do sol, a esperança não é
contemplada. “Dancem até a morte efémera” cantam-lhes as sereias. Tudo será
igual, menos eu, que já não faço parte. Menos eu, que agora depois de muito
tempo sufocado e quase sem esperança, como bom soldado, orgulhoso dos meus
feitos por ter combatido com bravura, apoiei-me no bordão e por forças próprias
me retirei para ladrilhar novamente o meu curso. Tudo será igual, menos o foco
na imortalidade, a querença de pisar com intenção qualquer via que eu cruzar,
marcando e deixando indiferente tudo e todos por quem eu passar. A exceção
disso, tudo será igual.
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