sábado, 14 de setembro de 2013

A viúva de Prius Octávius



Delicadamente acaricio a face com as pontas das minhas garras que cintilam de breu na minha mão esquerda. Num suspiro nostálgico relaxo os lábios carnudos, tingidos num tom escarlate e molhados de whisky. Ao mesmo tempo, os cílios pesados fazem cair as pálpebras esfumadas e me vendam a visão e encobrem-me os gázeos, deixando somente a imaginação  de olhos abertos para a saudosa dor de causa a perda da tua vida, a qual ontem velei e chorei sobre a campa. As lágrimas tingidas de preto correm pelo meu rosto pálido, caiado pelo pó-de-arroz, criando um rio de foz as pérolas que sufocam o meu pescoço e ornamentam o meu regaço. O vento traz nesse instante ao coreto o perfume fresco do orvalho madrugador no jardim. E ao suspirar, brota em mim a paz e um sentimento que sussurra que tudo um dia passa, exceto as memórias e a saudade. Estas estarão para sempre guardadas e imortais dentro de nós. E ao suspirar, esboço um sorriso. Vem-me a memória do teu olhar cinzento e inofensivo, com pupilas dilatadas, os teus lábios sempre molhados do whisky que também molhou os meus, e o teu pescoço, a tela onde magistralmente rosas tão graciosas foram pintadas, tal como todo o teu tronco por deus esculpido e pintado, sempre despido, derramado na cadeira de baloiço, aqui, ao meu lado nesse mesmo coreto, enquanto em silêncio namorávamos com olhares e sem toque ao som de Piaf.
Como o fogo a incidir sobre o gelo, derretendo tudo e fazendo escorrer, fazendo frágil a pedra consistente, transformando em água, impossível de agarrar nas mãos, nesse mesmo instante o sol incandescente nasce por detrás das montanhas e desperta-me do meu sonho hipnótico. Abro os meus olhos, acendo o último cigarro que está sobre a mesa e desfruto prazerosamente da solidão e da nova vida que agora viverei. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Non Paenitenda


Tudo será igual. O cristo de braços extensos na outra margem velando por “Tago, de antiga estirpe e de grande beleza”. A calçada monocromática que concebe encruzilhadas em breu, geometricamente perfeitas, onde perfeitamente no centro se coloca a figura equestre relinchante petrificada, montado pelo destemido D. José de bronze. O arco de marfim, a rua de ouro e a rua de prata. As fontes e os deuses que inspiraram Bocage, de onde D. Pedro (sim, D. Pedro, e não Maximiliano do México) também petrificado, fita com brio os feitos a partir deste porto seguro do povo de Olisipo. Os carros a correrem pela Liberdade rodeando o imponente felino ao lado do grande criador (ou melhor, recriador) de tudo que por ali abaixo se vê. Tudo será igual.

Tudo será igual, menos a vida e a efemeridade que agora ela detém. Menos as memórias vividas e o pesar pelas fatalidades outrora abortadas. Menos as lágrimas vertidas pelo que passou (sem nenhuma gota de arrependimento) e a certeza de que não há remorso pelos feitos, quer vitoriosos ou esmorecedores. O que passou, passou. Não adianta girar a ampulheta, pois o tempo não volta atrás. Tudo será igual, menos a vontade de crescer, desbravar, evoluir e vencer, sem ilusões ou mundos paralelos, repletos de escuridão e carcoma, onde os espelhos e os poucos raios de luz subterrâneos iludem, onde o som do desespero, da carência e do desamor estão isolados e abafados pelo hino hipnótico em voz de sereias que nos cantam “dancem, até o mundo acabar. Nós vamos morrer jovens”. Ali, no subterrâneo ninguém os pode ouvir. Ali em baixo, eles já estão soterrados, nem pensam no nascer do sol, a esperança não é contemplada. “Dancem até a morte efémera” cantam-lhes as sereias. Tudo será igual, menos eu, que já não faço parte. Menos eu, que agora depois de muito tempo sufocado e quase sem esperança, como bom soldado, orgulhoso dos meus feitos por ter combatido com bravura, apoiei-me no bordão e por forças próprias me retirei para ladrilhar novamente o meu curso. Tudo será igual, menos o foco na imortalidade, a querença de pisar com intenção qualquer via que eu cruzar, marcando e deixando indiferente tudo e todos por quem eu passar. A exceção disso, tudo será igual.