quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Non Paenitenda


Tudo será igual. O cristo de braços extensos na outra margem velando por “Tago, de antiga estirpe e de grande beleza”. A calçada monocromática que concebe encruzilhadas em breu, geometricamente perfeitas, onde perfeitamente no centro se coloca a figura equestre relinchante petrificada, montado pelo destemido D. José de bronze. O arco de marfim, a rua de ouro e a rua de prata. As fontes e os deuses que inspiraram Bocage, de onde D. Pedro (sim, D. Pedro, e não Maximiliano do México) também petrificado, fita com brio os feitos a partir deste porto seguro do povo de Olisipo. Os carros a correrem pela Liberdade rodeando o imponente felino ao lado do grande criador (ou melhor, recriador) de tudo que por ali abaixo se vê. Tudo será igual.

Tudo será igual, menos a vida e a efemeridade que agora ela detém. Menos as memórias vividas e o pesar pelas fatalidades outrora abortadas. Menos as lágrimas vertidas pelo que passou (sem nenhuma gota de arrependimento) e a certeza de que não há remorso pelos feitos, quer vitoriosos ou esmorecedores. O que passou, passou. Não adianta girar a ampulheta, pois o tempo não volta atrás. Tudo será igual, menos a vontade de crescer, desbravar, evoluir e vencer, sem ilusões ou mundos paralelos, repletos de escuridão e carcoma, onde os espelhos e os poucos raios de luz subterrâneos iludem, onde o som do desespero, da carência e do desamor estão isolados e abafados pelo hino hipnótico em voz de sereias que nos cantam “dancem, até o mundo acabar. Nós vamos morrer jovens”. Ali, no subterrâneo ninguém os pode ouvir. Ali em baixo, eles já estão soterrados, nem pensam no nascer do sol, a esperança não é contemplada. “Dancem até a morte efémera” cantam-lhes as sereias. Tudo será igual, menos eu, que já não faço parte. Menos eu, que agora depois de muito tempo sufocado e quase sem esperança, como bom soldado, orgulhoso dos meus feitos por ter combatido com bravura, apoiei-me no bordão e por forças próprias me retirei para ladrilhar novamente o meu curso. Tudo será igual, menos o foco na imortalidade, a querença de pisar com intenção qualquer via que eu cruzar, marcando e deixando indiferente tudo e todos por quem eu passar. A exceção disso, tudo será igual.  

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