Promessas francas sobre um palácio em construção
são certezas ditas na mais pura das emoções. Elas cobrem a alma com a brisa
primaveril e espelham-na, num sorriso cintilante. É como se brotasse em mim,
como uma flor, a afeição, como se almejasse fundir dois em um, para sempre.
Sim, para sempre, sem volta, eternamente, enquanto durar. São sentimentalidades
que me conturbam nesta fascinação desmedida provocada pela carência.
Na verdade, o meu escudo deveria ser impenetrável. De
muito pesar já padeci por me entregar assim, por inteiro. Por vezes, sem
solução, a não ser a morte, o termo sem volta. Mas não é assim o meu escudo (se
é que eu o tenho). Eu entrego-me, mesmo assim. E vivo cada momento. Sou muito
feliz, porque tudo o que vivo é intenso, porque voo alto. Contudo, sei que
sofrerei muito mais, se porventura me faltarem as asas, ao saltar do mais alto
cume. Mas eu entrego-me. É como sou. Já sofri muito com isso, por me entregar,
por confiar em alguém, acredita. Mas, sei que sou mais feliz também, porque
vivo assim, intensamente. Isso não cinge os meus sonhos, as minhas quimeras, do
“era uma vez”, findado no “viveram felizes para sempre”. Sei que o palácio em
construção um dia estará pronto, com torres inabaláveis, abóbodas cravadas com
pedras preciosas, e de cúpulas bordadas com os mais belos vitrais alguma vez
imaginados.
Mesmo que um dia o D. Casmurro apareça com o escudo
mais forte do mundo, perdido no labirinto, dentro de si, eu farei tudo o que
puder para o conquistar, se um ponto luminoso vir sobre o seu ombro esquerdo.
Pois nada me assusta, nem o mais complexo labirinto. A beleza dos labirintos é
saber que, apesar de todas as peripécias e dificuldades, existe neles um
caminho certo. E sabe bem batalhar para o encontrar. O galardão no fim é
superior, quando desbravando florestas densas, revestidos com a armadura de
pureza e simplicidade nas espadas de madeira, encontramos a recompensa. E quiçá,
no fim, vivemos felizes para sempre, eternamente. Mesmo que o próprio eterno tenha um fim, «que seja eterno enquanto dure».

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