- Então, acordado por estas horas?
-Sim, não consigo dormir... Tive um pesadelo horrível e tenho medo de dormir novamente e o pesadelo continuar...
Fecho os olhos. A história já foi contada e é hora de dormir. As luzes se apagam. Vejo-te a sorrir para mim, mamã, a vir na minha direcção. Estranhamente o cenário está preto e branco... Não consigo perceber! Ouço a tua risada feliz, os pássaros a cantar e o rio a correr ali a diante. Os meus pés rapaz travesso batiam ansiosamente no chão, como o meu coração que rufava pela tua chegada. Continuas a correr na minha direcção. Estavas tão linda com os cabelos ao vento, no meio das flores perfumadas, tudo tão doce como as frutas daquela árvore onde estou à sombra. Vejo ao fundo as vacas, bem ao longe no pasto, E olhando um bocadinho para cima vejo um avião a pintar o céu, de poucas nuvens e um sol radiante. No mesmo instante passa a minha frente uma linda borboleta, que desenha no céu várias formas e me fazem viajar na sua viagem... Distraio-me neste lindo cenário... É quando te perco de vista! "Mamã, onde estás?" E chamo insistentemente por ti, cada vez mais alto, e começo a chorar e a gritar, pois perdi-te de vista! "Por favor mamã, aparece!!!"
No mesmo instante acordo assustado. Foi só um pesadelo que atormentou o meu sono. Tinha lágrimas nos olhos... Foi tudo tão real, que ainda consigo sentir o cheiro de tudo. Estava a transpirar e a respiração ofegante. Foi quando olhei para mim e eu já não era mais aquele miúdo do sonho mal. Aliás, era, porém os anos já se haviam passado e eu tinha crescido. Não queria dormir novamente, pois não queria voltar para aquele pesadelo. Não queria , nem quero, perder-te, mãe!
Quando miúdo, abraçava o meu peluche, cerrava os olhos e tudo se esquecia! Gritava por ti, e vinhas a correr, dizendo "calma, já passou, foi só um sonho mal". Agora é tudo diferente. Hoje não te tenho aqui. O tempo passa, e crescemos, num piscar de olhos. Quando vemos, até peluches saem das camas (na maioria das vezes)!
Surgem por vezes, depois de crescidos, pessoas que nos aconchegam (mesmo virtualmente) quando os pesadelos invadem os nossos sonhos. Sonhos a dormir, ou sonhos acordados. A vida por vezes dá um nó e se complica no mundo dos grandes e eu não fazia ideia. Muitas vezes dói aprender, não há rodinhas auxiliares na bicicleta, e temos que cair para aprender. E custa muitas vezes levantar depois de cair. Aqui surgem os nossos "peluches com vida", chamemos assim àquelas pessoas que nos suportam quando mais precisamos e que estão aqui, realmente e que não proferem somente o "estou aqui, conta comigo para o que precisares", estão mesmo ali!
Obrigado ao meu peluche, que mesmo eu sendo esta criança, com pesadelos de criança, num mundo de adulto e caminhos confusos na jornada da vida, está aqui, para eu o abraçar e cerrar os meus olhos, em contendas (mesmo virtualmente).

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