Foi quando os olhos deparam-se com a fronte muito próxima da parede. Foi um grande susto para ela. Por instantes, parada, questionava o seu erro, ou acidente. A música continuou e ela quase que num estalo despertou daquela hipnose, recompôs-se, subiu outra vez para a ponta dos seus pés. Por dentro, amaldiçoava deus e o mundo, quase que sentia as lágrimas a correrem no seu interior, mas por fora, estava sorridente e perfeita como se nada houvesse acontecido. E voltou para o centro, onde os focos de luz lhe impediam de ver quem a assistia. Por vezes é melhor assim. Ao não sabermos quem nos assiste, o medo de falhar diminui.
Acidentes acontecem, não podemos prever, muito menos culpar-nos por eles. É uma fatalidade não premeditada que se pudéssemos, evitávamos, tal como o erro. A diferença é que o erro é culpável, embora seja fatalidade não premeditada. Chama-se negligência. Muitas das vezes por falta de coragem chamamos acidente a um erro. Passamos a culpa para outro, ou mesmo para ninguém. Culpamos tudo, menos nós mesmos. Acto de cobardia da nossa parte. Há-que se ter coragem e cara lavada para se dizer "eu errei". É sempre mais fácil culpar os outros. Contudo, pelo erro (também) aprendemos. Se não identificarmos o nosso erro como culpa, não nos servirá de lição, pois a culpa não foi nossa e o que estava errado não será corrigido.
Errar é humano. Não como desculpa do nosso erro, mas sim como o ponto de situação de que reconhecemos o erro e da próxima vez será diferente. Mais que um acto de coragem, reconhecer os erros é um acto de sabedoria. Ao identificar o erro, automaticamente procurámos uma solução. Um acidente, "bem, não foi minha culpa. É melhor corrigirem as falhas do palco"; e nada fizemos para que a situação se resolvesse.

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