sábado, 28 de junho de 2014

Sete Peles no Espelho


É como eu sou.
Felizmente. Infelizmente.
Algemo-me ao sonho.
Ao sonho dos outros.
Não aos meus. Sim aos deles.

É como eu sou.
Fatais pecados da mente.
Tudo por carinho.
E eu vivo neutro.
Alma, espelho das sete peles.

E esta inveja que me consome
Enjoa e expele as minhas entranhas
E engole a dor de carregar este nome
 Em cristal, lágrimas que formam montanhas

Todo rio cursa um curso,
Nunca escolhe a sua foz.
Leito: terra rasgada em lama,
Fado em corrente forte.
Manto d’água que desagua no mar

E o vento afaga…
Sopra o perfume da flor da sepultura
Viver dói e o dia não acaba.
Sepultem-me hoje, para que não sangre minha alma pura.

E esta inveja que me consome
Enjoa e expele as minhas entranhas
E engole a dor de carregar este nome
 Em cristal, lágrimas que formam montanhas

É como eu sou.
Fatais pecados da mente.
Tudo por carinho.
E eu vivo neutro.
Alma, espelho das sete peles.








quinta-feira, 19 de junho de 2014

Primogenitura



Era o fim do inverno no outro lado do atlântico, na cidade circundada pelo arco de água doce com setecentos e cinquenta palmos de largura. Eis que exatamente aos quarenta e oito minutos após o nascer sol, no décimo primeiro dia do terceiro mês do calendário gregoriano, nove anos antes do segundo milénio, é-lhe concedido o dom supremo, através do sopro do Criador: a vida.
Contaminado pela impureza pecaminosa do seu admirável novo mundo, Ele, ser frágil e imaculado, como que num presságio sobre as atrocidades e selvajarias a enfrentar de agora em diante, comprime a face e liberta um clamor esgoelado e pesaroso. Os seus progenitores regozijavam com júbilo a sua chegada. Ele era o primogénito, o primeiro pomo resultante daquele amor, e o percursor da linhagem, quem carregaria posteriormente o brasão da estirpe. Uma fusão milagrosa da seiva humana de cor escarlate entre dois seres.

No princípio, coberto de seda e de grinalda, e decorado com junquilhos amarelos em volta da cabeça, aquando dos seus primeiros passos, na primeira vez que os seus pés tocaram o chão de porcelana quente da hora sexta, Ícaro e Penélope já eram na essência de Ele, e viviam em paz no seu interior. Os lustres de cristais iluminavam os seus passos pelo desfiladeiro e nos córregos, com a água pelos joelhos, o povo, incluindo os seus pais, faziam vénias em sua honra, cortejando-o de acordo com a sua passagem. Quando chegou ao fundo do desfiladeiro, deparou-se com a cascata d’água glacial, que refletia o seu semblante. Foi a primeira vez que Ele mirou a sua imagem e tal como Narciso amaldiçoou a si próprio, despetalando em sete mil a flor da sua alma.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Interocepção


Espelho da alma desfeita em estilhaços por plumas brancas maculadas pela seiva de homem pecador. Fragmentado sob Vénus e sobre a ardósia fleumática do jardim de inverno, decorado pela vegetação seca e urnas partidas, d’onde escorrem as cinzas que bailam ao sopro de Éolo e pairam no vazio formando nuvens de pó que instigam os olhos obcecados, que rompem com bravura os sete véus do espírito. 
Lá fora, as venezianas das janelas embatem contra as paredes por caiar e os galhos secos da cerejeira gemem enquanto escalavram os vitrais coloridos das janelas do segundo andar. Os baloiços proferem um brado estridente enquanto se entrelaçam e se enamoram. Os portões adornados pelas correntes pesadas se debatem freneticamente contra a sebe que circunda toda a área pertencente ao palacete.
 E cá dentro estou eu, com a lareira e as velas acesas, com Saramago nas mãos e debaixo dos olhos, mantenho-me na cadeira de baloiço que me baloiça e faz ranger o soalho empoeirado, com as pernas cobertas pela manta de retalhos. E distraio-me a fitar pela janela a chuva a cair, à espera de ouvir o chiar das tuas botas enquanto sobes o varandim e giras a maçaneta, escancarando a porta, de chapéu e sobretudo ensopados e esboças o mais belo sorriso de todos, que ilumina a sala, os quartos e o saguão. Encandeando o meu ser, desencantando quaisquer maldições e ressuscitando o espelho da alma desfeita em estilhaços por plumas brancas maculadas pela seiva de homem pecador.

Por agora, quimeras. Nada passa de sonho, fruto da imaginação. Será que um dia voltas? Ou, porventura, irei eu? Para já espero. É somente, por agora, o que posso fazer. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ícaro se Torna Penélope


Saudades de toda aquela liberdade.
Saudades das asas de cera,
Que por eu voar tão alto, derreteram ao sol primaveril.

Ah, se eu pudesse voltar atrás!
Se eu pudesse, seria novamente Ícaro,
E voava de acordo com os meus rumos.

Não que eu esteja engaiolado,
Mas há correntes invisíveis aos olhos de vidro
Que não me deixam prosseguir.

Ah, se eu pudesse, certamente voltava no tempo!
Se eu pudesse, mudava os atos, para não me tornar Penélope
E, assim, prosseguiria novamente pela minha rota.

Saudades de toda aquela liberdade.
Saudades das asas de cera,
Que por eu voar tão alto, derreteram ao sol primaveril.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Imo

Tingi outra vez as minhas veias de luto,
Contraí as entranhas e sustive o ar
Para não esboçar nenhuma expressão.

Agora as cores estão mais garridas
E a luz tão intensa que até ofusca.
Escondi a alma do mundo
E pintei um sorriso na cara.
Agora a carne não espelha nada
E o que sinto está no cofre.

Três chaves de ouro agora
São o que resta de mim:
Silêncio. Apatia. Ego.

Mas isso, eu não darei a ninguém.
Só a capa que guarnece,
 O sorriso pintado na cara,
 As cores garridas da paleta que pinta a pele,
E a luz intensa que até ofusca
É que darei de mim.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Innominatam


Eu já não sei o que quero.
Se quero. Se não quero.

Receio voar.
Desaferrolhar na areia.

Abrir a gaiola.
Largar as amarras.

Mas…

Eu já não sei o que quero.
Se quero. Se não quero.

Preciso voar.
Não olhar para trás.

Abrir a gaiola.
Arrotear o cosmos.

Mas…

Eu já não sei o que quero.
Se quero. Se não quero.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Lutum Paris



Abortados sobre as escórias de um solo infértil e domesticado, resvalamos do interno de Maria, onde nos aprisionam a preceitos que raiaram antes mesmo da luz que irradiou do próprio Messias, quando poisou avassaladoramente e converteu o orbe. E inalávamos todo o pó do solo onde as nossas cabeças se apoiavam. E uma rajada fazia levitar a poeira que nos inebriava, atirando-a contra os nossos olhos em forma de tempestade. E, com os olhos ao rubro, vertia de nós o mais puro cristal que inundava as nossas almas e glorificava todo o nosso ser. E inundava. E, tomado de pura inveja, o céu encoberto de prata, em pranto se derramava, aquietando a poeira e tornando tudo em barro, o qual é a nossa origem que, pelo sopro do Criador, fez de nós carne. O barro, com o qual nos fundíamos agora novamente. E, em plena ovação e em ritmo de ritual sacrificial, as árvores contemplavam a aliança do ser pensante com a sua matéria-prima. E vivificavam, com o pranto derramado pelos céus, o desalento de deus perante a sua obra. E as nuvens densas se dissipavam e, ainda muito encoberto, via-se o tapete azul a abrir alas no cinzento, para que pudesse ali passar o Astro-rei. E afagante Ele surge, o Sol, que ameniza calorosamente toda a terra até aos horizontes, e encandeia também todos que olhem diretamente para ele, pois é santo imaculado e ninguém consegue fitá-lo. E secava também todo o pranto da terra que os deuses inundaram. E nós e o barro, praticamente dissolvidos, secávamos injustamente à luz do sol. E mesmo que tentássemos fugir, agora eramos um só, nós e o barro. E, enfim, como a concubina de Ló, petrificados ficamos. E somos as gárgulas reflexas e sem vida, sentinelas do mundo vedado pelas muralhas, as leis do supremo sumo-sacerdote, eternos escravos de barro, assolados incondicionalmente pelas tábuas da lei, que para sempre ditarão os nossos destinos.