sábado, 20 de setembro de 2014

Fragmentos de Fogo


E fervilhava cálida
A larva contida na câmara.
Os teus olhos defloravam meu espectro.

E o halo burilava o teu semblante
Encandeava estonteante e aquecia:
Noite de sol d’ hora sexta nos dias do estio.
Não havia a brisa, nem a gravidade.

E minh’ alma levitava e pairava sob os céus,
O véu se incendiava e a chaminé se enchia,
A larva quente dentro do meu peito fervilhava,
Fazia os meus lábios transbordarem a larva ardente
Que fluía pelo peito: amálgama de carne e paz.

“Antes da união dos gázeos, combinaram as almas tal encontro”
Nem nuvem, nem vapores, nem cinzas, nem nevoeiro…
Nada impediria a fusão de duas almas, duas almas perdidas.
A larva gela e solidifica as duas almas condensadas numa só.
Nem nuvem, nem vapores, nem cinzas, nem nevoeiro…
Nada impediria a fusão de duas almas, duas almas perdidas. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Ecdise

Se eu fosse embora:
Fugiria de algo?
Buscaria por algo?

Olho para o mar e choro.
Se por um lado me traz paz,
Imenso mar de ondas firmes,
Desagua em mim também a inveja.
São maremotos da minha alma,
A minha vida por isso choro.

E a dor que eu sinto é perigosa.
Nociva, desgastante
E eu me esgoto.

Há quem diga que está no escuro.
Eu nunca saí de lá. Acho que a luz é ficção,
Criação de homens sonhadores.
 E o breu encandeia também.
 É um abismo onde eu me encontro,
Caio vertiginosamente, sem parar.

Hoje, enquanto o sol nascia,
Ao meu lado, enquanto eu dormia
Ele afagou as minhas mágoas na minha cabeça.

sábado, 2 de agosto de 2014

Insularidade

Por vezes, esta segregação que faço quando o sol no Hemisfério Norte é quente como a brasa no braseiro e o céu cobiçoso plagia a Safira nos seus tons de anil faz-me pensar. Faz-me pensar na vida, no quão jovem se morre e tão pouco se vive. Vive-se pouco, preocupado com os dias vindouros e esquece-se que hoje também é dia, pois não há futuro sem presente. E cobre-se o rosto com a máscara, esconde-se do espelho atrás da capa e finge ser-se quem não se é, para se viver as aparências e fazer feliz a quem circunda, enclausurando quem se é, impregnando dentro de si próprio toda a imundícia, a falsidade e a descoragem, sangrando por dentro o sangue podre que deixa a carne e a alma em putrefação, chorando pelos cantos amarga e desalmadamente a cobardia na comodidade do presente por um futuro melhor.

Envolto na neblina densa e respirando o ar húmido e quente, eu sei que cavo a minha própria sepultura e preparo o meu próprio velório, empurrando a minha própria tumba, por uma alma cândida e imaculada nas promessas de glória eterna. Não é fácil transformar-me na muralha indestrutível e inabalável de tijolos maciços que almejo. Sonho com isso, mas não luto pelos meus sonhos. Enquanto isso, isolo-me aqui dentro nesta ilha que o mar separa dos meus sonhos, de onde o sol nasce por detrás todas as manhãs. Quiçá por medo das ondas, ou da imensidão do mar, não me atiro desbragadamente nas águas gélidas e incógnitas deste oceano e nado com coragem até aos meus sonhos. Um dia, quiçá.

sábado, 28 de junho de 2014

Sete Peles no Espelho


É como eu sou.
Felizmente. Infelizmente.
Algemo-me ao sonho.
Ao sonho dos outros.
Não aos meus. Sim aos deles.

É como eu sou.
Fatais pecados da mente.
Tudo por carinho.
E eu vivo neutro.
Alma, espelho das sete peles.

E esta inveja que me consome
Enjoa e expele as minhas entranhas
E engole a dor de carregar este nome
 Em cristal, lágrimas que formam montanhas

Todo rio cursa um curso,
Nunca escolhe a sua foz.
Leito: terra rasgada em lama,
Fado em corrente forte.
Manto d’água que desagua no mar

E o vento afaga…
Sopra o perfume da flor da sepultura
Viver dói e o dia não acaba.
Sepultem-me hoje, para que não sangre minha alma pura.

E esta inveja que me consome
Enjoa e expele as minhas entranhas
E engole a dor de carregar este nome
 Em cristal, lágrimas que formam montanhas

É como eu sou.
Fatais pecados da mente.
Tudo por carinho.
E eu vivo neutro.
Alma, espelho das sete peles.








quinta-feira, 19 de junho de 2014

Primogenitura



Era o fim do inverno no outro lado do atlântico, na cidade circundada pelo arco de água doce com setecentos e cinquenta palmos de largura. Eis que exatamente aos quarenta e oito minutos após o nascer sol, no décimo primeiro dia do terceiro mês do calendário gregoriano, nove anos antes do segundo milénio, é-lhe concedido o dom supremo, através do sopro do Criador: a vida.
Contaminado pela impureza pecaminosa do seu admirável novo mundo, Ele, ser frágil e imaculado, como que num presságio sobre as atrocidades e selvajarias a enfrentar de agora em diante, comprime a face e liberta um clamor esgoelado e pesaroso. Os seus progenitores regozijavam com júbilo a sua chegada. Ele era o primogénito, o primeiro pomo resultante daquele amor, e o percursor da linhagem, quem carregaria posteriormente o brasão da estirpe. Uma fusão milagrosa da seiva humana de cor escarlate entre dois seres.

No princípio, coberto de seda e de grinalda, e decorado com junquilhos amarelos em volta da cabeça, aquando dos seus primeiros passos, na primeira vez que os seus pés tocaram o chão de porcelana quente da hora sexta, Ícaro e Penélope já eram na essência de Ele, e viviam em paz no seu interior. Os lustres de cristais iluminavam os seus passos pelo desfiladeiro e nos córregos, com a água pelos joelhos, o povo, incluindo os seus pais, faziam vénias em sua honra, cortejando-o de acordo com a sua passagem. Quando chegou ao fundo do desfiladeiro, deparou-se com a cascata d’água glacial, que refletia o seu semblante. Foi a primeira vez que Ele mirou a sua imagem e tal como Narciso amaldiçoou a si próprio, despetalando em sete mil a flor da sua alma.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Interocepção


Espelho da alma desfeita em estilhaços por plumas brancas maculadas pela seiva de homem pecador. Fragmentado sob Vénus e sobre a ardósia fleumática do jardim de inverno, decorado pela vegetação seca e urnas partidas, d’onde escorrem as cinzas que bailam ao sopro de Éolo e pairam no vazio formando nuvens de pó que instigam os olhos obcecados, que rompem com bravura os sete véus do espírito. 
Lá fora, as venezianas das janelas embatem contra as paredes por caiar e os galhos secos da cerejeira gemem enquanto escalavram os vitrais coloridos das janelas do segundo andar. Os baloiços proferem um brado estridente enquanto se entrelaçam e se enamoram. Os portões adornados pelas correntes pesadas se debatem freneticamente contra a sebe que circunda toda a área pertencente ao palacete.
 E cá dentro estou eu, com a lareira e as velas acesas, com Saramago nas mãos e debaixo dos olhos, mantenho-me na cadeira de baloiço que me baloiça e faz ranger o soalho empoeirado, com as pernas cobertas pela manta de retalhos. E distraio-me a fitar pela janela a chuva a cair, à espera de ouvir o chiar das tuas botas enquanto sobes o varandim e giras a maçaneta, escancarando a porta, de chapéu e sobretudo ensopados e esboças o mais belo sorriso de todos, que ilumina a sala, os quartos e o saguão. Encandeando o meu ser, desencantando quaisquer maldições e ressuscitando o espelho da alma desfeita em estilhaços por plumas brancas maculadas pela seiva de homem pecador.

Por agora, quimeras. Nada passa de sonho, fruto da imaginação. Será que um dia voltas? Ou, porventura, irei eu? Para já espero. É somente, por agora, o que posso fazer. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ícaro se Torna Penélope


Saudades de toda aquela liberdade.
Saudades das asas de cera,
Que por eu voar tão alto, derreteram ao sol primaveril.

Ah, se eu pudesse voltar atrás!
Se eu pudesse, seria novamente Ícaro,
E voava de acordo com os meus rumos.

Não que eu esteja engaiolado,
Mas há correntes invisíveis aos olhos de vidro
Que não me deixam prosseguir.

Ah, se eu pudesse, certamente voltava no tempo!
Se eu pudesse, mudava os atos, para não me tornar Penélope
E, assim, prosseguiria novamente pela minha rota.

Saudades de toda aquela liberdade.
Saudades das asas de cera,
Que por eu voar tão alto, derreteram ao sol primaveril.