Neste palácio onde já reinaram muitos fizeste-me o rei. Qual conto de
fadas é tão belo? Sem carpete púrpura fizeste-me Rei pelos campos verdejantes,
entre as árvores e no cume das rochas. Entrelaçaste as tuas mãos nas minhas e
os teus olhos de tão verde faziam inveja às sequóias que procuramos, sem muito
sucesso. E o brilho do sol não era mais belo do que o teu sorriso. Que magia é
maior do que dar vida a uma árvore tombada com amor? Levaste-me tão alto e lá
de cima víamos todo o reino à nossa volta, e lá bem longe o mar. Levaste-me tão
alto, lá em cima, onde pude sentir-me mais leve do que uma pena. Ser rei nos
dias de hoje não é para qualquer um. Tu, só tu és capaz de coroar-me assim,
sem nenhum ornato em ouro, somente com o teu carinho e amor.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Sonetto in Preghiera
Peço sabedoria para agir
Se é que ainda está alguém por aí,
Se é que ainda está alguém por aí a ouvir-me.
Peço sensatez a quem eu sei que existe,
Mas a quem eu não conheço,
Muito menos sei quem é.
Peço paz para que tudo se una
E corra no mesmo curso,
Em águas plácidas e cristalinas
E onde eu possa renascer.
Peço ânimo se ainda o merecer
Não por mim, mas pelas almas que me luzem
No âmago do meu ser estéril e incapaz,
Neste corpo onde preferia não existir.
Já não peço. Imploro-te e os meus olhos se afogam.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Shibari
É deveras surreal a capacidade que tens de me prender sem cordas e
dominares o meu corpo e sentimentos sem estares presente. Quando me tomas pelo
colarinho e mostras que dominas qualquer parte do meu ser contigo, seja
presente, virtualmente, ou somente quando és fruto da minha mente por pensar em
ti constantemente, só me ocorre que não precisas de o fazer, porque há algum
tempo que me rendi e sou teu cativo.
É puro prazer o que desencadeias sem algemas nem mordaça, quando me
mostras que és tu quem manda. Eu me rendo, sem resistência, como se qualquer
tortura se tornasse em ternura por contemplar o teu sorriso. Submeto-me ao que
tu queres, porque o teu prazer faz-me sorrir como um miúdo, mesmo quando está tudo
controlado e eu não tenho controlo nenhum sobre mim, nem sobre nada e está tudo
nas tuas mãos.
São mais do que palavras, ou do que o toque. É dentro dos teus olhos onde
eu vejo refletido os meus pulsos vermelhos acorrentados, e o suor inseguro a
escorrer pelo meu pescoço, enquanto tento dizer pela mordaça “por favor, não
vás”. Não precisas dizer-me. Nem precisas tocar-me. Eu sei que és tu sem o
fazeres. Mas quando tocas…
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Boy Toy
Para já não me tens como merecíamos ao menos tentar. E eu, por vezes na
maioria dos momentos, sou inseguro e tenho medo que te canses de esperar que eu
me desembarace dos meus grilhões tão complexos e apertados nos artelhos.
Lucidamente me alentas e dizes “eu estou e estarei aqui, até que…”.
Para já não me tens como merecíamos ao menos tentar. E eu, por vezes, na
maioria dos momentos, sou carente (que palavra difícil) e posso dar-te pouco de palpável enquanto a
areia escorre entre os compromissos e quando vejo que já se passaram horas
e os certos não ficaram azuis, os meus pensamentos mudam e acho que não
merecíamos sequer tentar, afinal. Mas com três frases devolves-me o sorriso e
eu sinto novamente que para já não me tens como merecíamos ao menos tentar.
Para já não me tens como merecíamos ao menos tentar. “Mas tenho-te” – por
outras palavras me dizes tu, e é suficiente, por agora. Tens-me e desejas
também tentar com os braços tão abertos quanto os meus. E isso para mim é
suficiente, até que tudo seja mais simples para mim e, consequentemente para
nós, quiçá.
sábado, 15 de agosto de 2015
Fantasmas numa Mesquita
Não sou perfeito, longe disso até... Queria ser perfeito e ter tudo o que desejo ao meu alcance, ser detentor de toda a sabedoria e de toda a lei, de todo o poder. Queria escolher as pessoas que eu tenho ao meu lado. Anjos, mães e arcanjos. Mães, sobretudo a minha mãe. Ter o Arcanjo Miguel, tão perfeito e imaculado, a venerar-me e tão frágil sob os meus cuidados. Mas não sou. Mas não sei. Mas não tenho.
Não sou perfeito, longe disso até...
Eu tenho mil problemas... Mas quem não os tem, não é? Ninguém é perfeito, na verdade. E na verdade eu sou fraco para a quantidade de problemas que eu tenho. Nem se eu distribuísse um problema por pessoa eu seria perfeito. Porque há problemas que me transcendem, me ultrapassam. Sou fraco para tantos problemas. Tenho poucas forças para resolver tantas coisas. Não sou perfeito, longe disso até...
O que me resta são as minhas poucas forças para lutar pelas coisas que as minha poucas forças podem resolver. Não vou entrar em batalhas invencíveis, as quais antes de começar sei que vou sair derrotado, pois há gigantes que eu posso aniquilar e há outros que não dependem de mim, porque a minha espada é de madeira e na minha funda só tenho uma pedra. Não sou perfeito, longe disso até...
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Garras e Transtornos Crônicos (até agora)
Acho que sou assim desde os seis, não sei bem. Nunca parei, mesmo quando sangrava ou a tinta que cobria deixava um sabor horrível. Nem quando levava uns tapas para não repetir. Nunca parei. Antes eu tinha flexibilidade e tinha vinte, agora eu tenho flexibilidade, mas tenho nojo, então só tenho dez. Nunca tive aquela coroa branca no topo delas, sempre tiveram esse tamanho assim, nunca foram mais do que isso. As vezes faço-o sem pensar, de forma compulsiva e descontrolada. Eu não sei se é algum medo, preocupação, ou até ansiedade, crônica até agora. Sei que sou assim desde os seis, e que, aos vinte e quatro, tenho as pontas dos dedos deformadas, como se fossem almofadinhas.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Seis e Seis (Versos de uma Insónia para Compor uma Melodia)
Hoje eu não
vou dormir,
Vou estar
aqui antes do sol nascer.
Hoje pode até
se avermelhar a esclera:
Vou privar o
meu sono e sonhar acordado.
Hoje eu não
vou dormir,
Vou até ver
se há café para beber.
Hoje ninguém
vai estar à minha espera:
Vou ver a
lua se apagar sorrindo, aluado.
De tempo a
tempo eu olho para a claraboia.
Estou à
espera do clarão de alvorada.
Ouço uns
barulhos estranhos, que paranoia!
Será uma
vizinha que ainda está acordada?
Hoje eu
tenho que ir à rua,
Vou à botica
buscar o meu preparado.
Hoje a minha
mãe faz aniversário, é verdade!
Vou pensar
em algo bonito para poder lhe dizer.
Hoje eu
tenho que ir à rua,
Vou com
prazer, estou saindo com agrado.
Hoje, ser for
à Mercês, não quero ver o abade!
Vou tentar
ir cedo se for preciso para me tolher.
De tempo a
tempo eu olho para a claraboia.
Estou à
espera do clarão de alvorada.
Ouço uns
barulhos estranhos, que paranoia!
Será a minha
irmã que já está acordada?
(Eu acho que não vou conseguir…
Uaaaah,
que sono.
Mas eu não
vou dormir!
Tic-tac... Zzz…)
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