sábado, 15 de agosto de 2015

Fantasmas numa Mesquita


Não sou perfeito, longe disso até... Queria ser perfeito e ter tudo o que desejo ao meu alcance, ser detentor de toda a sabedoria e de toda a lei, de todo o poder. Queria escolher as pessoas que eu tenho ao meu lado. Anjos, mães e arcanjos. Mães, sobretudo a minha mãe.  Ter o Arcanjo Miguel, tão perfeito e imaculado, a venerar-me e tão frágil sob os meus cuidados. Mas não sou. Mas não sei. Mas não tenho. 
Não sou perfeito, longe disso até... 

Eu tenho mil problemas... Mas quem não os tem, não é? Ninguém é perfeito, na verdade. E na verdade eu sou fraco para a quantidade de problemas que eu tenho. Nem se eu distribuísse um problema por pessoa eu seria perfeito. Porque há problemas que me transcendem, me ultrapassam. Sou fraco para tantos problemas. Tenho poucas forças para resolver tantas coisas. Não sou perfeito, longe disso até...

O que me resta são as minhas poucas forças para lutar pelas coisas que as minha poucas forças podem resolver. Não vou entrar em batalhas invencíveis, as quais antes de começar  sei que vou sair derrotado, pois há gigantes que eu posso aniquilar e há outros que não dependem de mim, porque a minha espada é de madeira e na minha funda só tenho uma pedra. Não sou perfeito, longe disso até...

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Garras e Transtornos Crônicos (até agora)


Acho que sou assim desde os seis, não sei bem. Nunca parei, mesmo quando sangrava ou a tinta que cobria deixava um sabor horrível. Nem quando levava uns tapas para não repetir. Nunca parei. Antes eu tinha flexibilidade e tinha vinte, agora eu tenho flexibilidade, mas tenho nojo, então só tenho dez. Nunca tive aquela coroa branca no topo delas, sempre tiveram esse tamanho assim, nunca foram mais do que isso. As vezes faço-o sem pensar, de forma compulsiva e descontrolada. Eu não sei se é algum medo, preocupação, ou até ansiedade, crônica até agora.  Sei que sou assim desde os seis, e que, aos vinte e quatro, tenho as pontas dos dedos deformadas, como se fossem almofadinhas. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Seis e Seis (Versos de uma Insónia para Compor uma Melodia)



Hoje eu não vou dormir,
Vou estar aqui antes do sol nascer.
Hoje pode até se avermelhar a esclera:
Vou privar o meu sono e sonhar acordado.

Hoje eu não vou dormir,
Vou até ver se há café para beber.
Hoje ninguém vai estar à minha espera:
Vou ver a lua se apagar sorrindo, aluado.

De tempo a tempo eu olho para a claraboia.
Estou à espera do clarão de alvorada.
Ouço uns barulhos estranhos, que paranoia!
Será uma vizinha que ainda está acordada?

Hoje eu tenho que ir à rua,
Vou à botica buscar o meu preparado.
Hoje a minha mãe faz aniversário, é verdade!
Vou pensar em algo bonito para poder lhe dizer.

Hoje eu tenho que ir à rua,
Vou com prazer, estou saindo com agrado.
Hoje, ser for à Mercês, não quero ver o abade!
Vou tentar ir cedo se for preciso para me tolher.

De tempo a tempo eu olho para a claraboia.
Estou à espera do clarão de alvorada.
Ouço uns barulhos estranhos, que paranoia!
Será a minha irmã que já está acordada?

(Eu acho que não vou conseguir…
Uaaaah, que sono.
Mas eu não vou dormir!
Tic-tac... Zzz…)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Glaciem Larva

Existe algo que sempre petrifica o meu ser.
Algo que me transforma num glaciar…
Num glaciar de qualquer polo,
 Já tanto me faz onde é o meu norte.

 Há sempre o desejo de fundir,
 Desvanecer entre as águas gélidas
 Sob o calor do fogo
Dentro dos olhos de quem me ama.

 O eu? Tanto me faz!
 Se o espelho não reflete,
Tanto me faz o eu!

 Eu só quero a paz!
Seja pela dor do abandono,
Seja pela asfixia da alma,
Ou pelo silêncio dos sonhos.

Até tento aniquilar os meus sonhos
E bajular os preceitos de pedra.
Quase que hipocrisia.
Ai que vida! Ai que vida!

Mas estou congelado nos meus sonhos,
Por mais que tente derreter.
O egoísmo mais puro.
O mais difícil pesar. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Talisca

Grandes almas 
Corações puros 
Nos fazem sorrir 
põem estrelas nos nossos olhos.

Bocas sinceras
Gargantas verdadeiras  
Nos aconchegam 
E aquecem do inverno frio e húmido.

E a areia passa 
E o tempo escoa 
Não damos conta. 

Humildade e pureza desigual 
O mar que nos rodeia. 
Neblina que nos turva a visão, 
Só ao longe. 
Por ali, tudo límpido, transparente. 

E o calor que nos dão 
parece vindo do vulcão 
Ali ao lado adormecido.
Quiçá magma correm-lhe nas veias. Felicidade e apreço sincero.

O norte pode até ser pequeno; 
Mas os corações são grandes. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Selma (Vendaval no Abacateiro)


Enquanto eu observava do fundo do corredor escuro o seu quarto iluminado, ela chorava em silêncio a dor do seu próprio findar. Ela estava de costas deitada sobre a cama e eu só via o soluçar do seu corpo, ritmado de samba triste. Dói saber que o fim dela se aproxima e por isso verto lágrimas também. Sei que ruas de ouro e jardins sempre floridos são o seu destino, mas a perda nunca é fácil, mesmo quando um corredor flui entre nós e o desapego de pensar nela todos os dias ou de ver o seu sorriso, já não existe. As paredes sem tinta comprimiam o corredor e confinavam cada vez mais a minha visão.
Quando olhei à minha esquerda, entre outra porta no mesmo corredor, vi a filha dela sentada num quarto onde a única luz vinha da janela que refletia lá de fora a lua e os postes do pátio. Da mesma janela que emanava luz vinha uma brisa fria que fazia bater as portadas das janelas e dançar o abacateiro, fazendo música com as suas folhas. Eu sabia de onde era o som, mesmo sem ver o abacateiro ou as portadas, porque outrora nenhum corredor de água nos distanciava e o mesmo vendaval ou calor que elas sentiam, eu também sentia. Porque antes, através das portadas de madeira abertas eu e sobre o chão frio, observava entre os balaustres o vento no abacateiro. Só que agora já não estou lá e um corredor flui entre nós. E a filha dela bordava ali sentada, com pouca luz, uma colcha prata que, de tão grande, cobria as suas pernas e se estendia pelo chão e cintilava com o brilho lá de fora. As paredes sem tinta comprimiam o corredor e confinavam cada vez mais a minha visão.

Sei que ainda não chegou o fim. Mas que a paz carimbada no nome dela brote no meio do pátio e germine nas raízes do abacateiro. E que, chegado o fim, o adeus custe e doa como tem que ser. Mas que a paz carimbada no nome dela brote, no meio do pátio e germine nas raízes do abacateiro e corra até as suas folhas e de lá se expanda, por todos nós que por aqui ficamos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Efemérides



É porque tudo na vida tem um porquê, sabe.
Até mesmo a felicidade.
Há sempre um preço a pagar, um pacto a fazer.
Até mesmo para feliz se ser.

A nossa sina talvez seja essa.
Deixemos que tudo aconteça.

Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.

Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,
Se assim tiver de ser.

Olha lá à frente: vê o barco de papel?
Não se afundou o frágil batel.
É esperança que não verte, não derrama.
É sossego de alma que a paz proclama.

A nossa sina talvez seja essa.
Vamos deixar que tudo aconteça.

Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.

Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,
Se assim tiver de ser.

Agora não chores mais: sussurro-te a sorrir
Consolo-te no meu regaço
O teu pranto escorre para o rio a fluir,
Os olhos secam eu te envolvo num abraço.

A nossa sina talvez seja essa.
Vamos deixar que tudo aconteça.

Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.

Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,

Se assim tiver de ser.