Acho que sou assim desde os seis, não sei bem. Nunca parei, mesmo quando sangrava ou a tinta que cobria deixava um sabor horrível. Nem quando levava uns tapas para não repetir. Nunca parei. Antes eu tinha flexibilidade e tinha vinte, agora eu tenho flexibilidade, mas tenho nojo, então só tenho dez. Nunca tive aquela coroa branca no topo delas, sempre tiveram esse tamanho assim, nunca foram mais do que isso. As vezes faço-o sem pensar, de forma compulsiva e descontrolada. Eu não sei se é algum medo, preocupação, ou até ansiedade, crônica até agora. Sei que sou assim desde os seis, e que, aos vinte e quatro, tenho as pontas dos dedos deformadas, como se fossem almofadinhas.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Seis e Seis (Versos de uma Insónia para Compor uma Melodia)
Hoje eu não
vou dormir,
Vou estar
aqui antes do sol nascer.
Hoje pode até
se avermelhar a esclera:
Vou privar o
meu sono e sonhar acordado.
Hoje eu não
vou dormir,
Vou até ver
se há café para beber.
Hoje ninguém
vai estar à minha espera:
Vou ver a
lua se apagar sorrindo, aluado.
De tempo a
tempo eu olho para a claraboia.
Estou à
espera do clarão de alvorada.
Ouço uns
barulhos estranhos, que paranoia!
Será uma
vizinha que ainda está acordada?
Hoje eu
tenho que ir à rua,
Vou à botica
buscar o meu preparado.
Hoje a minha
mãe faz aniversário, é verdade!
Vou pensar
em algo bonito para poder lhe dizer.
Hoje eu
tenho que ir à rua,
Vou com
prazer, estou saindo com agrado.
Hoje, ser for
à Mercês, não quero ver o abade!
Vou tentar
ir cedo se for preciso para me tolher.
De tempo a
tempo eu olho para a claraboia.
Estou à
espera do clarão de alvorada.
Ouço uns
barulhos estranhos, que paranoia!
Será a minha
irmã que já está acordada?
(Eu acho que não vou conseguir…
Uaaaah,
que sono.
Mas eu não
vou dormir!
Tic-tac... Zzz…)
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Glaciem Larva
Existe algo que sempre
petrifica o meu ser.
Algo que me transforma
num glaciar…
Num glaciar de qualquer
polo,
Já tanto me faz onde é o meu norte.
Há sempre o desejo de fundir,
Desvanecer entre as águas gélidas
Sob o calor do fogo
Dentro dos olhos de
quem me ama.
O eu? Tanto me faz!
Se o espelho não reflete,
Tanto me faz o eu!
Eu só quero a paz!
Seja pela dor do
abandono,
Seja pela asfixia da
alma,
Ou pelo silêncio dos sonhos.
Até tento aniquilar os
meus sonhos
E bajular os preceitos
de pedra.
Quase que hipocrisia.
Ai que vida! Ai que
vida!
Mas estou congelado nos
meus sonhos,
Por mais que tente
derreter.
O egoísmo mais puro.
O mais difícil pesar.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Talisca
Grandes almas
Corações puros
Nos fazem sorrir
E põem estrelas nos nossos olhos.
Bocas sinceras
Gargantas verdadeiras
Nos aconchegam
E aquecem do inverno frio e húmido.
E a areia passa
E o tempo escoa
Não damos conta.
Humildade e pureza desigual
O mar que nos rodeia.
Neblina que nos turva a visão,
Só ao longe.
Por ali, tudo límpido, transparente.
E o calor que nos dão
parece vindo do vulcão
Ali ao lado adormecido.
Quiçá magma correm-lhe nas veias. Felicidade e apreço sincero.
O norte pode até ser pequeno;
Mas os corações são grandes.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Selma (Vendaval no Abacateiro)
Enquanto eu observava do fundo do corredor escuro o seu quarto iluminado,
ela chorava em silêncio a dor do seu próprio findar. Ela estava de costas
deitada sobre a cama e eu só via o soluçar do seu corpo, ritmado de samba
triste. Dói saber que o fim dela se aproxima e por isso verto lágrimas
também. Sei que ruas de ouro e jardins sempre floridos são o seu destino, mas a
perda nunca é fácil, mesmo quando um corredor flui entre nós e o desapego de
pensar nela todos os dias ou de ver o seu sorriso, já não existe. As paredes
sem tinta comprimiam o corredor e confinavam cada vez mais a minha visão.
Quando olhei à minha esquerda, entre outra porta no mesmo corredor, vi a
filha dela sentada num quarto onde a única luz vinha da janela que refletia lá
de fora a lua e os postes do pátio. Da mesma janela que emanava luz vinha uma
brisa fria que fazia bater as portadas das janelas e dançar o abacateiro,
fazendo música com as suas folhas. Eu sabia de onde era o som, mesmo sem ver o
abacateiro ou as portadas, porque outrora nenhum corredor de água nos
distanciava e o mesmo vendaval ou calor que elas sentiam, eu também sentia.
Porque antes, através das portadas de madeira abertas eu e sobre o chão frio,
observava entre os balaustres o vento no abacateiro. Só que agora já não estou
lá e um corredor flui entre nós. E a filha dela bordava ali sentada, com pouca
luz, uma colcha prata que, de tão grande, cobria as suas pernas e se estendia
pelo chão e cintilava com o brilho lá de fora. As paredes sem tinta comprimiam
o corredor e confinavam cada vez mais a minha visão.
Sei que ainda não chegou o fim. Mas que a paz carimbada no nome dela
brote no meio do pátio e germine nas raízes do abacateiro. E que, chegado o
fim, o adeus custe e doa como tem que ser. Mas que a paz carimbada no nome dela
brote, no meio do pátio e germine nas raízes do abacateiro e corra até as suas
folhas e de lá se expanda, por todos nós que por aqui ficamos.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Efemérides
É porque tudo na vida tem um porquê,
sabe.
Até mesmo a felicidade.
Há sempre um preço a pagar, um pacto a
fazer.
Até mesmo para feliz se ser.
A nossa sina talvez seja essa.
Deixemos que tudo aconteça.
Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.
Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,
Se assim tiver de ser.
Olha lá à frente: vê o barco de papel?
Não se afundou o frágil batel.
É esperança que não verte, não derrama.
É sossego de alma que a paz proclama.
A nossa sina talvez seja essa.
Vamos deixar que tudo aconteça.
Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.
Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,
Se assim tiver de ser.
Agora não chores mais: sussurro-te a
sorrir
Consolo-te no meu regaço
O teu pranto escorre para o rio a fluir,
Os olhos secam eu te envolvo num abraço.
A nossa sina talvez seja essa.
Vamos deixar que tudo aconteça.
Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.
Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,
Se assim tiver de ser.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Nympha
Talvez por comiseração do eco estampado no espelho, sustento com os braços as paredes pútridas do porão prestes a ruir, pois é nos alicerces onde está a putrefação. Mesmo a ponderar que possas estar sob um camufle, espero imerso, com a âncora no pescoço, no fundo deste mar. Aguardo que chegues, tal como prometeste, e que me libertes da âncora que me cinge às sereias, quais frutos do mar, dos quais me embebedo, sem pudor. Pois de tantos, encantos, desencantos e cantos, aqui, submerso, inebrio-me e desfruto, prazerosamente. Receio que o prazer fecunde o meu coração, revestindo-me o coração em madrepérola. E aguardo ainda que me leves à margem, envolto em teus braços, para que me ensines a respirar o ar puro, para que me mostra o fogo e para que me incendeies também, como prometeste. Ciente do preço a pagar, se ao mirar-te os olhos, não forem estes de vidro, mesmo antes de a semente germinar e brotar do solo fértil, eu farei qualquer pacto... Abrirei a minha concha e entregar-te-ei a minha pérola.
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