quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Glaciem Larva

Existe algo que sempre petrifica o meu ser.
Algo que me transforma num glaciar…
Num glaciar de qualquer polo,
 Já tanto me faz onde é o meu norte.

 Há sempre o desejo de fundir,
 Desvanecer entre as águas gélidas
 Sob o calor do fogo
Dentro dos olhos de quem me ama.

 O eu? Tanto me faz!
 Se o espelho não reflete,
Tanto me faz o eu!

 Eu só quero a paz!
Seja pela dor do abandono,
Seja pela asfixia da alma,
Ou pelo silêncio dos sonhos.

Até tento aniquilar os meus sonhos
E bajular os preceitos de pedra.
Quase que hipocrisia.
Ai que vida! Ai que vida!

Mas estou congelado nos meus sonhos,
Por mais que tente derreter.
O egoísmo mais puro.
O mais difícil pesar. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Talisca

Grandes almas 
Corações puros 
Nos fazem sorrir 
põem estrelas nos nossos olhos.

Bocas sinceras
Gargantas verdadeiras  
Nos aconchegam 
E aquecem do inverno frio e húmido.

E a areia passa 
E o tempo escoa 
Não damos conta. 

Humildade e pureza desigual 
O mar que nos rodeia. 
Neblina que nos turva a visão, 
Só ao longe. 
Por ali, tudo límpido, transparente. 

E o calor que nos dão 
parece vindo do vulcão 
Ali ao lado adormecido.
Quiçá magma correm-lhe nas veias. Felicidade e apreço sincero.

O norte pode até ser pequeno; 
Mas os corações são grandes. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Selma (Vendaval no Abacateiro)


Enquanto eu observava do fundo do corredor escuro o seu quarto iluminado, ela chorava em silêncio a dor do seu próprio findar. Ela estava de costas deitada sobre a cama e eu só via o soluçar do seu corpo, ritmado de samba triste. Dói saber que o fim dela se aproxima e por isso verto lágrimas também. Sei que ruas de ouro e jardins sempre floridos são o seu destino, mas a perda nunca é fácil, mesmo quando um corredor flui entre nós e o desapego de pensar nela todos os dias ou de ver o seu sorriso, já não existe. As paredes sem tinta comprimiam o corredor e confinavam cada vez mais a minha visão.
Quando olhei à minha esquerda, entre outra porta no mesmo corredor, vi a filha dela sentada num quarto onde a única luz vinha da janela que refletia lá de fora a lua e os postes do pátio. Da mesma janela que emanava luz vinha uma brisa fria que fazia bater as portadas das janelas e dançar o abacateiro, fazendo música com as suas folhas. Eu sabia de onde era o som, mesmo sem ver o abacateiro ou as portadas, porque outrora nenhum corredor de água nos distanciava e o mesmo vendaval ou calor que elas sentiam, eu também sentia. Porque antes, através das portadas de madeira abertas eu e sobre o chão frio, observava entre os balaustres o vento no abacateiro. Só que agora já não estou lá e um corredor flui entre nós. E a filha dela bordava ali sentada, com pouca luz, uma colcha prata que, de tão grande, cobria as suas pernas e se estendia pelo chão e cintilava com o brilho lá de fora. As paredes sem tinta comprimiam o corredor e confinavam cada vez mais a minha visão.

Sei que ainda não chegou o fim. Mas que a paz carimbada no nome dela brote no meio do pátio e germine nas raízes do abacateiro. E que, chegado o fim, o adeus custe e doa como tem que ser. Mas que a paz carimbada no nome dela brote, no meio do pátio e germine nas raízes do abacateiro e corra até as suas folhas e de lá se expanda, por todos nós que por aqui ficamos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Efemérides



É porque tudo na vida tem um porquê, sabe.
Até mesmo a felicidade.
Há sempre um preço a pagar, um pacto a fazer.
Até mesmo para feliz se ser.

A nossa sina talvez seja essa.
Deixemos que tudo aconteça.

Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.

Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,
Se assim tiver de ser.

Olha lá à frente: vê o barco de papel?
Não se afundou o frágil batel.
É esperança que não verte, não derrama.
É sossego de alma que a paz proclama.

A nossa sina talvez seja essa.
Vamos deixar que tudo aconteça.

Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.

Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,
Se assim tiver de ser.

Agora não chores mais: sussurro-te a sorrir
Consolo-te no meu regaço
O teu pranto escorre para o rio a fluir,
Os olhos secam eu te envolvo num abraço.

A nossa sina talvez seja essa.
Vamos deixar que tudo aconteça.

Agora senta ao meu lado.
Vê o rio correr.
Que flua nele o nosso fado
De foz breve, se assim tiver de ser.

Vamos fluir com ele.
Mesmo sendo a foz breve,

Se assim tiver de ser.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Nympha

Talvez por comiseração do eco estampado no espelho, sustento com os braços as paredes pútridas do porão prestes a ruir, pois é nos alicerces onde está a putrefação. Mesmo a ponderar que possas estar sob um camufle, espero imerso, com a âncora no pescoço, no fundo deste mar. Aguardo que chegues, tal como prometeste, e que me libertes da âncora que me cinge às sereias, quais frutos do mar, dos quais  me embebedo, sem pudor. Pois de tantos, encantos, desencantos e cantos, aqui, submerso, inebrio-me e desfruto, prazerosamente. Receio que o prazer fecunde o meu coração, revestindo-me o coração em madrepérola. E aguardo ainda que me leves à margem, envolto em teus braços, para que me ensines a respirar o ar puro, para que me mostra o fogo e para que me incendeies também, como prometeste. Ciente do preço a pagar, se ao mirar-te os olhos, não forem estes de vidro, mesmo antes de a semente germinar e brotar do solo fértil, eu farei qualquer pacto... Abrirei a minha concha e entregar-te-ei a minha pérola. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Liber ( Monólogo do Desamor)



Em sincronia com as ondas que fazem vibrar-me o tímpano, o ilíaco move-se. E cada vértebra, da base para o topo, contorcem-se. A cabeça gira, de poente para nascente e as extremidades dos braços contornam-me o tronco até cobrirem o sol, dando sombra ao meu rosto. Sinto sobre a pele o vento, que nesta altura do ano, que no cume da montanha, faz ouriçar os pelos e faz bailar as vestes alvas, quase transparentes em contraluz com o sol, demarcando as formas do meu corpo para alguém que quiçá contempla ao longe.
Sou livre e as fitas, que envoltas no meu pescoço limitam-me a passada, estão frouxas, laças. É só o cetim suave que não enforca, nem asfixia. Sou livre e a viseira, que encobre-me e confina a visão, mostra-me que os olhos devem focar-se no horizonte. É só veludo, que não cega, nem obstrui. Sou livre e o espartilho, que aperta e comprime-me a cintura, não me impede de respirar. É só o couro a adelgaçar a silhueta e a suster a coluna. Sou livre e o seixo, que me fazem tropicar e tombar, guia-me no caminho. São brilhantes a ladrilhar o caminho até ao destino.

De olhos cerrados vejo o horizonte em flor e exalo o seu perfume exímio. Nada me prende nem pode deter. As lanças de ouro que trespassam-me os carpos, pingam o meu sangue nos meus lábios. Sangue que corre como rio pelos meus braços… Prossigo, rumo ao sonho. E nada coíbe nem obstrui a vontade da alma. Nem mesmo o amor, ou a acomodação. 

sábado, 20 de setembro de 2014

Fragmentos de Fogo


E fervilhava cálida
A larva contida na câmara.
Os teus olhos defloravam meu espectro.

E o halo burilava o teu semblante
Encandeava estonteante e aquecia:
Noite de sol d’ hora sexta nos dias do estio.
Não havia a brisa, nem a gravidade.

E minh’ alma levitava e pairava sob os céus,
O véu se incendiava e a chaminé se enchia,
A larva quente dentro do meu peito fervilhava,
Fazia os meus lábios transbordarem a larva ardente
Que fluía pelo peito: amálgama de carne e paz.

“Antes da união dos gázeos, combinaram as almas tal encontro”
Nem nuvem, nem vapores, nem cinzas, nem nevoeiro…
Nada impediria a fusão de duas almas, duas almas perdidas.
A larva gela e solidifica as duas almas condensadas numa só.
Nem nuvem, nem vapores, nem cinzas, nem nevoeiro…
Nada impediria a fusão de duas almas, duas almas perdidas.